As bases da administração moderna, com divisão por especialidades funcionais e hierarquia clara, são atribuídas ao exército prussiano, datando de mais de 250 anos atrás. Talvez não haja instrumento que melhor simbolize até hoje essas bases de comando e controle do que o conhecido “organograma”, com suas caixinhas e linhas definindo departamentos e níveis hierárquicos.
Aprendemos com o historiador Yuval Harari sobre o poder que criações compartilhadas têm em moldar comportamentos coletivos.

Lucas Guimarães, presidente do Grupo Positivo
Vejam o dinheiro: uma invenção humana sem valor intrínseco. Ainda assim, nem mesmo grupos radicais que odeiam os EUA queimariam 1 milhão de dólares em praça pública como protesto. Outro exemplo são as guerras travadas por povos africanos para defender fronteiras que antes nunca existiram, definidas arbitrariamente por colonizadores.
Como uma dessas poderosas ficções compartilhadas, não surpreende que o organograma impacte profundamente as relações na empresa. Alguns gestores não aceitam que colaboradores conversem com gestores de outras equipes ou com seus superiores hierárquicos. Tampouco é bem-visto que um gestor reporte um problema de um par para o “chefe” comum sem antes falar com o gestor daquele departamento. Tais comportamentos são considerados quase uma “traição”.
Infelizmente, esquece-se que, diferentemente da Prússia, não temos inimigos e não precisamos de uma hierarquia tão rígida. Influenciados pelo simbolismo do organograma, muitos perdem de vista que todos só têm funções atribuídas para atender a pessoa mais poderosa da empresa, aquela que demite do porteiro ao presidente: o cliente! Se ele não voltar, não haverá dinheiro para salários.
Nesse meandro de proibições de comunicação, perde-se de vista o melhor interesse da empresa.
Organograma, planejamento e controle têm sua função e importância. Mas que nunca limitem a livre troca de informações para melhor atender nossos clientes. Assim, convoco todos a “hackear” nosso organograma sempre que necessário para cumprir nosso propósito de aprender e ensinar para inspirar uma vida mais positiva. Nosso propósito passará sempre pela satisfação reiterada de nossos clientes. E não faremos isso sem uma comunicação ágil e fluida entre todos. Do porteiro ao presidente.
P.S.: O primeiro registro de um organograma moderno ocorreu em 1855, em uma ferrovia americana. Curiosamente, não era piramidal, mas tinha o formato de uma árvore: as raízes eram o conselho e diretores, e os galhos eram as divisões e estações.
