Escrito por: Lucas Guimarães
As bases da administração moderna, com divisão por especialidades funcionais e hierarquia clara, são atribuídas ao exército prussiano, datando de mais de 250 anos atrás. Talvez não haja instrumento que melhor simbolize até hoje essas bases de comando e controle do que o conhecido “organograma”, com suas caixinhas e linhas definindo os diferentes departamentos e níveis hierárquicos.
Aprendemos com o famoso historiador Yuval Harari sobre o poder que ficções compartilhadas entre grupos tem em moldar comportamentos coletivos.

Lucas Guimarães, presidente do Grupo Positivo
Veja, por exemplo, o caso do dinheiro: uma invenção humana sem qualquer valor intrínseco. Ainda assim, nem mesmo os grupos radicais que odeiam os EUA queimariam 1 milhão de dólares em praça pública como forma de protesto! Outro exemplo são as terríveis guerras travadas por povos africanos para defender fronteiras que antes nunca existiram, definidas arbitrariamente por colonizadores europeus.
Como uma dessas poderosas ficções compartilhadas coletivamente, não é de surpreender que o organograma tenha impacto profundo na forma como nos relacionamos na empresa. Alguns gestores não aceitam que os colaboradores de suas equipes conversem com os gestores de outras equipes. E aceitam menos ainda o contato com os seus superiores hierárquicos. Tampouco é bem visto que um gestor reporte determinado problema de um outro gestor em seu mesmo nível hierárquico para o “chefe” em comum. Esses comportamentos são considerados uma traição por alguns profissionais.
Esses gestores ou colaboradores parecem se esquecer de que, diferentemente do exército da Prússia, não temos inimigos, e um controle tão rígido na comunicação prejudica demais nossas entregas.
Influenciados pelo organograma, perdem de vista que todos na empresa só têm a função que lhes foi atribuída para atender ou apoiar o atendimento da pessoa mais poderosa da empresa, aquela que demite do porteiro ao presidente: o cliente. Sim, pois, se o cliente não voltar, em pouco tempo não teremos dinheiro para pagar qualquer salário. Limitando nossa comunicação ao organograma, ficamos lentos nas respostas e empobrecemos nossas percepções a respeito das dores de nossos clientes.
Organograma, planejamento, autonomias e controles têm sua função na organização da empresa, é claro. Mas que nunca limitem a livre troca de informações, essencial para melhor atender nossos clientes. Assim, convoco todos na empresa a cruzar sem medo as linhas do organograma sempre que necessário para cumprir nosso propósito de aprender e ensinar para inspirar uma vida mais positiva. Como qualquer propósito empresarial, o nosso passará sempre pela satisfação reiterada de nossos clientes. E não faremos isso sem uma comunicação ágil e fluida entre todos nós: do porteiro ao presidente.
Curiosidade: ainda que as bases da especialização e hierarquia moderna tenham se dado no exército da Prússia, o primeiro registro de um organograma mais parecido com o que temos hoje em dia é de 1855, aplicado em uma empresa ferroviária norte-americana. O curioso é que não se parecia com o formato de hoje. Tinha o formato de uma árvore, em que as raízes representavam o Conselho e diretores e os galhos, as divisões e estações da ferrovia. Uma visão mais esclarecida do organograma, colocando no topo quem mais importa: as linhas de frente e os clientes.
